Defensor ardoroso do iluminismo, o filósofo e antropólogo Sérgio Paulo Rouanet acredita que este ideal é capaz de vencer os preconceitos, a opressão e a injustiça. Ironicamente, a lei que elaborou para fomentar o desenvolvimento cultural do país não demonstra a mesma capacidade: há algumas semanas, denunciei no plenário do Senado Federal as distorções na distribuição das isenções previstas na Lei Rouanet.
Mais do que opressão e injustiça, as discrepâncias – a LDO 2010 prevê 79% das renúncias fiscais para as artes do Sudeste e a migalha de 8% para o Nordeste - colaboram para a consolidação de um estado de apartheid contra a arte produzida nesta parte do País.
Testemunhando o São João nordestino, porém, volto a crer que Rouanet (o filósofo, não a lei) tem razão. Com ou sem consciência dos princípios iluministas, a população nordestina reproduz nas ruas manifestações culturais e religiosas seculares.
Desta forma, ignora solenemente preconceitos, opressões e injustiças que apontam para uma suposta inferioridade cultural.
Pelo menos neste período, prevalece outro ideal defendido por Rouanet: apesar do entendimento de que há valores universais, não devemos apostar no relativismo cultural. No meio do arraiá, a convicção: o Nordeste sabe disso.
Sabe que, a despeito da lógica serial - como manda o ritmo da indústria – os valores culturais do Nordeste seguem firmes, no embalo de uma orquestra de pifâno, de um trio de forrozeiros, de uma divertida quadrilha matuta.
Todo o pacote de valores da tradição e da riqueza estética que envolve o cenário junino mostra isso: não relativamos nossa identidade cultural.
Mais do que isso: mantemos, quase que de forma autônoma, uma das culturas mais originais e dinâmicas do País.
O Governo não vê porque não quer. Rouanet (a lei) não contempla porque está mirando o pop de largo consumo.
Espero, em são joãos futuros, que a diversidade ganhe espaço na política cultural do país e incorpore todo o simbolismo que caracteriza a criatividade do povo nordestino - nosso artesanato, música, literatura, folclore. E concretize, na prática orçamentária, que venceu o preconceito e a pressão da cultura inteiramente comprometida com os interesses do mercado industrial.
Receba notícias e novidades no seu email.
Copyright Senado. Todos os direitos reservados.
Criação de Sites e Comunicação Digital: Agência Qualitare