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11-07-2010
Agora é lei
A viagem era longa – primeiro de carro, depois a pé, subindo o Alto do Moura em Caruaru. O sacrifício valia a pena para o antropólogo René Ribeiro: ele registrava a obra de um homem com um especial olhar criativo sobre o cotidiano banal - característica que, reproduzida em argila, o alçou a lugar de destaque na cultura do Nordeste.
Esse homem era Mestre Vitalino. E o antropólogo, meu pai.
“Baixo e franzino, a cor baça, a pele áspera e queimada de sol. Os olhos injetados de quem gosta de cana. Cabelo à escovinha. Roupa de algodão grosseiro. Chapéu de massa redondo aplicado à prumo na cabeça. Fala mansa e respeitosa, pontuada de exclamações. Assim era Mestre Vitalino”.
Assim meu pai retratava o artesão no livro Um Ceramista Popular do Nordeste, de 1959, a primeira e única edição feita sobre Vitalino quando o pernambucano ainda estava vivo. Na minha lembrança, uma frase marca o artista: “Doutô René, eu não tenho a roupa, mas sei como vestir”.
O que tentava dizer era que, em sua humildade, sabia como adentrar qualquer recinto. Em sua simplicidade, sobressaia a elegância.
Vivo, Mestre Vitalino me impressionou. Morto, também.
Seu falecimento, de varíola, com apenas 54 anos e sem assistência, abriu meu horizonte para uma dolorosa constatação: os artesãos, especialmente os nordestinos, têm uma experiência de vida de alegre criatividade, em um mundo triste, onde falta tudo. Até mesmo identidade.
Muitos anos depois, ao chegar ao Senado Federal, ainda carregava comigo o exemplo de Vitalino. Não somente as suas obras, mas também seus infortúnios, continuam sendo reproduzidos pelos artistas nordestinos.
Em um projeto de lei, aprovado esta semana no Senado Federal, pude reparar um pouco desta injusta condição. Nele, este ofício milenar finalmente é regulamentado.
Além de identidade, o projeto prevê políticas públicas e a abertura de financiamentos, além da criação de uma carteira nacional do artesão.
No ano em que Vitalino completaria cem anos, é meu presente aos mestres que o sucederam na sublime arte de representar a alma brasileira.