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Artigos

25-07-2010

Os “nove fora” da democracia

1910 – primeiros anos da República. O povo escolhia seus representantes pelo voto direto, mas os bastidores daquelas eleições seriam tratados pela história como democracia de curral, onde o eleitor era levado até a urna no cabresto.
 
2010 – O Brasil se prepara para realizar sua maior eleição, com mais de 135 milhões de pessoas aptas a votar. A urna agora é eletrônica, a apuração é quase instantânea, o voto é secreto.
 
Dois tempos na história. Dois cenários diferentes? Deixamos mesmo na “pré-história” eleitoral os currais e os votos do povo gado?
 
Antes de qualquer juízo de valor, me debruço sobre o significado do voto de cabresto, assim caracterizado por cientistas sociais:
 
“É uma modalidade de fraude eleitoral de natureza psicológica, onde alguém procura coagir eleitores desprotegidos a votar em determinado candidato”.
 
Os sociólogos, naturalmente, fazem referência a fenômenos sociais do início da República. Mas não há como disfarçar uma incômoda similaridade com o panorama político atual.
 
A verdade é que, sob nova roupagem, o curral sobreviveu.
 
Vive nas engrenagens de uma mecânica de voto que resistiu ao tempo e chegou ao novo milênio com seus novos e jovens coronéis reeditando os antigos expedientes.
 
Não há espaço para novidades. Na peneira histórica, passaram poucas surpresas.
 
E esse não é um cenário exclusivamente nacional. Da nação que se vangloria de ser exemplo de democracia, assistimos “Bush filho” suceder “Bush pai”; assim como testemunhamos “Clinton marido” abrir espaço para “Clinton esposa”.
 
Além de uma linha sucessória que mais lembra a monarquia, via de regra é candidato quem pode comprar a liderança, o gestor, o cabo eleitoral.
 
Esse, aliás, é um mercado que desafia a lógica da matemática. Por exemplo: se formos montar uma conta com base nas denúncias que sussurram das campanhas, como um candidato pode fechá-la com saldo positivo se “comprar” apoios de lideranças municipais a R$ 100 mil, ganhando pós eleição R$ 153,600 ao ano, com seu salário mensal de R$ 12,800?
 
Não se trata de fazer denúncias, mas de um convite a reflexão: é isto o que é democracia? Porque, pelas minhas contas, os “nove fora” dessa aritmética nos leva a uma fraude eleitoral.
 


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