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21-12-2010
Políticos têm prestígio e PB, não
A pouco mais de um mês da despedida do Senado Federal, onde diz ter feito “uma pós-graduação política”, o senador Roberto Cavalcanti expõe, em entrevista reveladora, o melhor e o pior do ambiente pelo qual transitou nos últimos dois anos.
Dos tapetes azuis testemunha que, ao contrário do que acredita o senso comum local, a classe política paraibana não tem sido desprestigiada pela União.
“Há um reconhecimento nacional do talento político paraibano”, garante, explicando na sequência porque os cargos e atenções distribuídos ao longo dos anos para expoentes locais não refletem em mudanças na fisionomia econômica do Estado.
“Porque o foco tem sido sempre a política, não a Paraíba”, avalia o parlamentar, que diz ter se esforçado para seguir caminho oposto: “Me mantive neutro em relação às disputas paroquiais e focado na política econômica”.
Na entrevista ele ainda admite que foi sim “mordido pela mosca azul”, mas sem potencial para se deixar contaminar pelo desejo de continuar na política. “Não tenho planos de retorno”.
Também diz acreditar que, ao “partir atrasada”, a Paraíba tem a oportunidade de colocar em ação projetos de desenvolvimento melhorados, observando os erros cometidos pelos vizinhos.
“O turismo, por exemplo, provocou um boom da exploração sexual em vários estados da região, inaugurando a oportunidade de se construir na Paraíba um turismo mais familiar”, ilustra Cavalcanti, antecipando o que, em sua ótica, deve ser feito aqui e agora para que o Estado seja inserido até o final da década entre os grandes da Federação.
A entrevista
O senhor fala em pós-graduação política. Afinal, o que há de melhor dentro dos tapetes azuis?
Chegar ao Senado Federal é de fato a maior pós-graduação que um cidadão pode fazer na política. Poderia ter tido esta experiência em uma câmara de vereadores, em uma assembléia estadual ou mesmo na Câmara Federal, mas fui direto para a câmara máxima do legislativo, onde convivi assiduamente com ex-presidentes, ex-governadores e dezenas de futuros governadores. A nata política está lá. E esta é uma convivência bastante instrutiva.
Se este é o lado bom, qual o ângulo desfavorável do Senado? O que o senhor mudaria neste cenário?
Mudaria a política como um todo, especialmente em dois aspectos: um deles chamo de culto ao egocentrismo. O outro, estratégia de populismo. O egocentrismo foca-se no “eu”. E quando ele se junta ao popularismo, sinônimo aqui de oportunismo, temos aí um universo completamente diferente do mundo que naveguei por toda minha vida.
Quais foram as águas pelas quais navegou até adentrar o ambiente político?
Águas da pluralidade, do nós, nunca do eu isolado. Quando garoto, o ensinamento que recebi foi de cultuar a família. Na juventude, cultuar os colegas. E como empresário, cultuar e valorizar o trabalho em equipe, com delegação de poderes e gestão profissionalizada. Na política, todos esses valores são sublimados ou abolidos para que a marca registrada seja o “eu”.
O cidadão comum tem como identificar o ego e o populismo em ação?
Sim. Constata-se isso em exemplos singelos – a começar pelas portas dos gabinetes, onde não figura o nome do Estado que o parlamentar representa e sim seu nome – e se estende aos mais complexos, como bem testemunhamos na crise de 2009, com senadores se digladiando. É constatável ainda em apartes e projetos que desprezam os interesses nacionais ou que não são exeqüíveis, mas como soam bem perante a população, os parlamentares defendem em jogo de cena para a platéia. Este é, sem dúvida, o lado obscuro da política.
Eleitos para representar o povo, acabam representando a si mesmos...
Esta é a pior conseqüência, pois os efeitos deste culto ao eu não se circunscrevem apenas a vaidade. Refletem sobre o trabalho parlamentar, que ao invés de se voltar para a pluralidade das demandas (para o nós), concentra-se na defesa dos interesses particulares.
O senhor diz que tentou se desviar do “lado obscuro” da política, qual foi então o foco de seu mandato?
O principal deles foi não hastear bandeira partidária. Vindo da Paraíba, onde convivemos com uma polarização histórica, dei testemunho no Senado Federal de que se pode praticar política sem politicagem. Não ofendi ninguém, mesmo tendo passado por duas campanhas majoritárias (2006 e 2010).
Que outros focos o senhor destacou?
A política econômica, sem dúvida, que é o meu metiê, construído ao longo mais de quatro décadas de vida empresarial. Assim, me concentrei em trabalhar em temas e problemas que o país, a região e o Estado clamam há muito tempo. Posso citar a luta pela regulamentação dos cartões de crédito, que é uma demanda de toda a nação; a defesa pela transnordestina e a transposição, duas obras reclamadas pelo Nordeste; e a construção do porto de águas profundas, que tem potencial para mudar o cenário econômico da Paraíba.
O senhor foi eleito pelos jornalistas paraibanos como o parlamentar mais atuante no Senado. Esse reconhecimento o estimula a continuar na vida pública? Afinal, o senhor foi ou não foi mordido pela tal mosca azul?
Eu volto a repetir: convivo há 64 anos com Roberto Cavalcanti cidadão, 42 anos com o empresário e apenas 2 anos com o político – não foi tempo suficiente para alterar minha trajetória de vida. Mas se você me pergunta se a mosca me mordeu, sim, ela me mordeu, isso não posso negar.
Isto significa que podemos assistir uma tentativa de retorno?
Não está nos meus planos. Em minha contabilidade pessoal, existem dois bons motivos para voltar e uma dúzia de motivos para encerrar por aqui. Portanto, o placar sinaliza que esta será uma experiência única.
Quais são os bons motivos?
Um deles é o desejo, se me permite a imodéstia, de manter o nível de representação. No Senado, tive a oportunidade de obstacular matérias que em meu entender danificariam a nação e apresentar ou relatar inúmeras matérias que contribuíram positivamente para o País e a região. Outro motivo, do qual não me orgulho muito, diz respeito ao fato inequívoco de que, querendo ou não, o ser tem esse lado de vaidade, muito realçado no meu caso pelo amplo apoio e reconhecimento que tenho tido do meu trabalho por parte dos mais distintos extratos sociais do Estado.
Nesta reta final, tendo estado no epicentro do poder do País, dá para realizar por que a Paraíba tem sido tão desprestigiada em relação aos seus vizinhos nordestinos? Os políticos paraibanos não têm força ou projeção para nos inserir na rota do desenvolvimento?
Na vida, se obtém a vitória dentro do foco que se busca alcançar. Não falta prestígio aos políticos paraibanos. Pelo contrário. Há um reconhecimento nacional desse talento. Quantos nomes não ocuparam grandes cargos no disputado guarda-chuva governamental do País?
Então, por que este prestígio não alcança, pragmaticamente, a Paraíba?
O que falta a bancada paraibana é foco na Paraíba. Já tivemos muitos destaques políticos, muitas oportunidades, mas o foco sempre foi a política, não a Paraíba. Por isso não há a materialização desse reconhecimento, desse prestígio, em benefício do Estado.
O senhor acredita que a eleição do governador Ricardo Coutinho representa uma terceira via política, depois de décadas com dois blocos disputando o poder?
Todo exército de conquista tem seu mérito. Vence o melhor, os mais aguerridos. Porém, o grande erro histórico da Paraíba é utilizar os mesmos guerreiros da conquista na gestão política da colonização. Pois os guerreiros são radicais e os governantes precisam ser conciliadores. Funcionando como conselheiros do rei, podem conduzi-lo ao erro. Anima-me, porém, com o que vi e ouvi do novo governador na cerimônia de diplomação. Ele trouxe uma mensagem de conciliação e participação, sinalizando que gostaria de governar com todos, tendo a colaboração de todas as correntes do pensamento paraibano. Entendi como um gesto no caminho da mudança da política.
Concretamente, o senhor está confiante no novo governo?
Estou torcendo pela Paraíba. Assim como torço para a materialização desta terceira via, que só será efetivamente reconhecida e atestada se demonstrar que é capaz de atuar acima das colorações políticas, sempre tendo como objetivo o bem do Estado. E isto é possível. Gosto de pensar que dei demonstração prática de que se pode atuar desta forma. Mesmo sendo conduzido a representar a Paraíba por um grupo político, lá no Senado me comportei de forma absolutamente imparcial.
Para finalizar, o que, em sua ótica, precisa ser feito aqui e agora para a Paraíba alcançar outro estágio de desenvolvimento ao final desta década?
Em primeiro lugar, colocar em operação uma gestão profissionalizada, capaz de promover um enxugamento da máquina pública (não só na ociosidade funcional, mas também na graciosidade de determinados contratos). Mais: é preciso ter visão macro de futuro – ao mesmo tempo em que viabiliza os serviços básicos (saúde, segurança, educação) – e priorizar no orçamento as obras de infraestrutura, aquelas com potencial para gerar emprego e renda e alavancar o desenvolvimento.
Estas são ações que só podem ser operacionalizadas pelo Executivo. Onde entra o parlamento?
Na mudança de foco. É preciso haver união da bancada em torno dos projetos de interesse da Paraíba, além de aprimorar a percepção das oportunidades globais e nacionais. Já que a Paraíba vai partir atrasada, que parta com projetos melhorados, avaliando o que deu errado nos vizinhos. Por exemplo: o turismo provocou um boom da exploração sexual em vários estados da região, o que precisa ser evitado aqui.
Estamos aptos ao desenvolvimento?
Sempre estivemos. Dos tapetes azuis observei – e posso assegurar a todos os paraibanos – que não há nada no horizonte que nos descredencie para ingressar com o restante do País no primeiro mundo. Só nos falta a disposição para substituir a Paraíba pequenina dos poemas por uma prosa onde o Estado adquira musculatura para enfrentar a marcha do desenvolvimento.
Conheça o mandato de Roberto Cavalcanti – principais defesas
Obras estruturantes – Fez ampla defesa das obras que produzem, para além dos investimentos diretos, efeito cascata sobre a economia, gerando emprego, renda e atraindo novos negócios. Ao longo dos dois últimos anos, pleiteou a instalação do porto de águas profundas, ramal da transnordestina, pólo fertilizante, equipamentos turísticos (centro de convenções, vias litorâneas, saneamento), ampliação da malha aérea (novo aeroporto) e transposição do rio São Francisco.
União e planejamento estratégico – Na ótica de Roberto Cavalcanti, o cenário ideal tem menos política e mais pragmatismo. Durante o mandato, defendeu a união da bancada para costurar projetos capazes de alterar a fisionomia econômica do Estado a médio e longo prazos.
Projetos contra improbidade – Batizados de “pacote contra a improbidade”, apresentou três projetos de lei e uma Proposta de Emenda Constitucional para barrar os crimes do colarinho branco, dar mais poderes investigativos aos ministérios públicos e maior celeridade a Justiça, além de instituir ritos que vetam fichas sujas de ingressar em cargos públicos comissionados.
Liberdade de imprensa: Uma tragédia particular – o assassinato do sócio e primo Paulo Brandão - e a trajetória de empresário da comunicação estimularam uma série de defesas pela liberdade de imprensa, culminando com a apresentação de um Projeto de Lei e uma Proposta de Emenda Constitucional que propõem a federalização dos crimes cometidos contra profissionais de
imprensa e prioridade de julgamento.
Cartões de crédito – Economista, o senador Roberto fez as contas e mostrou (as vezes até com lupa) a misteriosa matemática que superfatura taxas e juros dos cartões de crédito. Apresentou proposta de decreto ao presidente Lula onde estabelece regras para o setor, hoje operando às margens do sistema financeiro nacional.
Dívidas agricultores – Motivado por inúmeras correspondências dos agricultores, apontando para uma crise sem precedentes na carteira de fomento agrícola no Nordeste e mais particularmente na Paraíba, defendeu no plenário e comandou audiência pública para abrir solução negociada e estancar a onda de execuções em curso nos campos da região.
Banda larga – Membro da Comissão de Ciência e Tecnologia, defende a operacionalização do Plano Nacional de Banda Larga, que reativa a Telebrás e passa a fazer uso de um enorme sistema de fibra ótica espalhado pelo País, levando a internet, em alta velocidade, para municípios até então condenados à desconexão eterna.
Desconcentração do desenvolvimento – Ao longo de seu mandato, defendeu nas esferas econômicas, política e até cultural mais justiça na distribuição dos recursos da União. Entre eles figura a partilha dos royalties pré-sal para também alcançar a Paraíba.
Foco econômico – Os principais fatos econômicos dos calendários 2009/2010 tiveram repercussão no mandato de Roberto Cavalcanti, entre os quais a crise cambial, os investimentos estrangeiros, recuperação de aposentadorias, defesa das empresas nacionais e apoio ao empreendedorismo (micro e médio).
Cultura – Além de defender equidade nos investimentos federais para a área, apresentou Projeto de Lei que cria oficialmente a profissão dos artesãos.
Educação – Reiteradamente defendeu maior suporte à educação, notadamente nas escolas profissionalizantes. A este propósito, apresentou Projeto de Lei que cria o campus do IFET em Sapé.
Adriana Bezerra